O ônibus estava cheio, o trânsito lento e, para
completar, chovia. Tornando o ambiente abafado e quente, apesar da chuva lá
fora. O meu alívio era estar sentada e lendo. O que me impedia de calcular quão
atrasada eu chegaria para a aula na faculdade.
Estava na cadeira logo atrás da porta de desembarque.
Uma mulher, ao lado de um jovem, chamou a minha atenção por olhar,
insistentemente, para mim. Achei que estava surpresa por me ver lendo. Às vezes
isso acontecia, parece que para algumas pessoas, quem lê no ônibus é um ser de
outro planeta.
Depois percebi que o rapaz ao lado dela - em pé na
porta de desembarque - também lia. E o fazia em pé, sem o mínimo de conforto.
Percebi que ela olhava de mim para ele. Cheguei à conclusão de que ela nos
achava dois seres estranhos. Ele mais ainda, por ler em pé. Mas alguma coisa na
expressão da mulher me inquietou. Ela olhava como se quisesse me mostrar algo.
Nos mostrar algo. Foi aí que vi, em um movimento dele para passar a página, que
estávamos lendo o mesmo livro. "O velho
e o mar", de Ernest Hemingway.
Eu fiquei impressionada com a coincidência e a
expressão da mulher denunciou que ela percebeu o meu impacto. Ela riu, balançou
a cabeça e desceu na parada seguinte. O menino também viu que eu também estava
lendo. Não sei se percebeu que líamos o mesmo livro.
Descemos na mesma parada. Fomos para o mesmo destino.
Ele também era estudante do mesmo curso que eu. Eu no meio da jornada e ele no
início. Já o tinha visto antes pelos corredores e continuamos a nos esbarrar
por alguns semestres. Mas nunca mais pegamos o mesmo ônibus. E não sei se, além
das leituras obrigatórias da Universidade, lemos mais algum livro em comum.

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