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Mostrando postagens de agosto, 2017

Mar e Lua

Não represou as lágrimas. Não era de seu feitio reprimir a natureza. Deixou que escorressem e delas fez um mar, mas não para afogar-se, como na canção. Não estava disposta a aceitar que qualquer normatividade enquadrasse o seu amor. Das lágrimas fez mar e convidou a sua amada, de olhos amarelos como a lua cheia, para mergulhar na imensidão. Ela foi, sem medo. E juntas admiravam o céu e as estrelas refletidas nas águas, fazendo delas o seu infinito. (Inspirado na música Mar e Lua , de Chico Buarque .)

Das coincidências...

O ônibus estava cheio, o trânsito lento e, para completar, chovia. Tornando o ambiente abafado e quente, apesar da chuva lá fora. O meu alívio era estar sentada e lendo. O que me impedia de calcular quão atrasada eu chegaria para a aula na faculdade. Estava na cadeira logo atrás da porta de desembarque. Uma mulher, ao lado de um jovem, chamou a minha atenção por olhar, insistentemente, para mim. Achei que estava surpresa por me ver lendo. Às vezes isso acontecia, parece que para algumas pessoas, quem lê no ônibus é um ser de outro planeta. Depois percebi que o rapaz ao lado dela - em pé na porta de desembarque - também lia. E o fazia em pé, sem o mínimo de conforto. Percebi que ela olhava de mim para ele. Cheguei à conclusão de que ela nos achava dois seres estranhos. Ele mais ainda, por ler em pé. Mas alguma coisa na expressão da mulher me inquietou. Ela olhava como se quisesse me mostrar algo. Nos mostrar algo. Foi aí que vi, em um movimento dele para passar a página, que e...

Do mar ou das letras...

Odeio a impessoalidade. Essa coisa fria e distante. Eu gosto do contato direto. De sentir a proximidade através das palavras. Talvez por isso aprecie mais as crônicas do que os textos rebuscados, embora este me atraia pelo fascínio que tenho pela escrita acadêmica. Mas, até esta precisa ser concreta para me atrair. Devaneios travestidos de reflexões teóricas, definitivamente, não me atraem. Gosto de escritos que falam da realidade e que apontam um caminho. Qualquer caminho. A deriva me assusta. Seja a deriva do mar ou das letras.

Tieta

Minha primeira gata chegou lá em casa numa noite de chuva. Estava numa caixa de papelão em frente à minha casa. Era uma noite fria e ela, muito pequena, miava muito. Depois que nosso cachorro havia sido roubado, cinco anos antes, não tivemos mais nenhum animal de estimação. Até aquela noite. Era para ser temporário, mas depois que recebeu um nome, Tieta não saiu mais da nossa casa. Tieta me acordava, todas as manhãs, para eu ir à escola. E esperava meu retorno, esparramada no muro de casa, todos os dias. Fazia tempo que não pensava nela. Até chegar à Casa do Rio Vermelho e ver uma gata muito parecida com ela. Na casa de Jorge Amado, pai de Tieta, minha gata me manda lembranças... (Casa do Rio Vermelho, Salvador, out/2015)

A Rua

A rua. Parecia tão larga na hora de brincar de "dono da rua". E tão estreita pra aprender a fazer a curva na bicicleta. A calçada de Dedé era tão alta na hora que a coragem de pular de patins ia embora. A ladeira parecia tão íngreme quando tentava subir de bicicleta. Era tão comprida quando tive que ir sozinha, pela primeira vez, à escola. Hoje é só uma lembrança. Um cheiro, uma imagem. Uma saudade.